Blog do Pacheco


MEA CULPA - 20 ANOS DEPOIS!!!!!

1989 - Tinha eu 37 anos de idade! Quanto tempo faz! 

Concluíra meu curso de bacharelado em Ciências Jurídicas havia apenas 4 anos e, apesar de já haver passado por outros bancos escolares de nível superior, a Faculdade de Direito havia me proporcionado a experiência fantástica de participar e exercer papel importante nas atividades políticas acadêmicas, que culminou com o exercício da presidência do Diretório Acadêmico, ganha a duras penas, após uma campanha difícil, porém respeitosa, sem qualquer ataque pessoal, de nenhum dos lados, numa dura, mas democrática eleição, disputada com minha amiga, hoje professora, e ex diretora da Faculdade de Direito, a Eliana.

A Eliana estudava na mesma classe que eu. Boa aluna, participante ativa dos movimentos sociais, e apesar da pouca idade na época, muito madura, era a  representante da Frente, braço político acadêmico do Partido dos Trabalhadores, na Faculdade.

Vivíamos, todos, naqueles anos, de 1982, quando voltei à Faculdade de Direito, a 1985, quando me formei, o período final do governo João Figueiredo, o último ditador de plantão, e da tal transição lenta, gradual e segura, pregada pelo General Ernesto Geisel, o penultimo.

Foram os tempos do Movimento Pelas Diretas Já, que acabou por desaguar na eleição indireta de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, do qual o PT se recusou a participar.

De maneira trágica, o Presidente Eleito, Tancredo Neves, foi substituído por José Sarney, seu candidato a Vice, que acabou governando o País por cinco longos anos. Quem não lembra??? Plano Cruzado I, Plano Cruzado II, inflação a 80% ao mês, os marajás do serviço público, etc....etc....

Em 1989, finalmente terminava o reinado de José Sarney na presidência da Nova República!

Eu teria, enfim, a oportunidade, primeira de minha vida, aos 37 anos, de livremente, diretamente, sem qualquer intermediário, escolher o Presidente da República, ou, pelo menos, aquele que entendia ser o mais preparado para governar o País.

Passara a viger a nova Constituição Federal, a "Constituição Cidadã", como dissera Ulysses Guimarães, no ato de sua promulgação, pela Assembléia Nacional Constituinte, no ano anterior. A mesma Constituição, hoje vigente, e que a bancada de constituintes do PT, na época, se recusara a assinar. Entre eles, o Deputado Luiz Inácio Lula da Silva.

Eleição em dois turnos, no primeiro eu poderia escolher entre 23 candidatos: Mario Covas, Ulysses Guimarães, Fernando Collor de Mello, Lula, Brizola, Maluf, Guilherme Afif, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Ronaldo Caiado, Affonso Camargo, Enéas, Marronzinho, Paulo Gontijo, Amir Teixeira, Livia Abreu, Eudes Oliveira, Fernando Gabeira, Celso Brandt, Antonio Pedreira, Manoel Horta, Armando Corrêa e, vejam só, Silvio Santos. Isso mesmo, o homem do Baú!

Caso no primeiro turno nenhum atingisse o índice dos 50% mais 1 dos votos válidos, os dois mais votados iriam para o segundo turno. Tal como hoje!

Em razão da péssima situação política em que se encontrava o governo de José Sarney, e o próprio País, dentre os 23 candidatos que se apresentaram, não havia um, qualquer que fosse, que se declarasse da situação.

Eram todos oposicionistas!

Claro que alguns mais radicais, como o Caçador de Marajás, Fernando Collor e o revolucionário Lula; outros menos, como Ulysses Guimarães, do eterno oportunista PMDB e Affonso Camargo do eterno governista PTB.

A quem nunca tinha sido dado este direito de escolha, era candidato e eleição a não ter fim!

Votei no Mário Covas no primeiro turno e, por ter sido apenas o 4º colocado, não foi adiante.

Perdi a eleição do primeiro turno!

Foram ao segundo turno os dois candidatos que durante a campanha, ainda no primeiro turno, mais haviam atacado o governo e o Presidente José Saney, que recebeu de ambos, em maior ou menor grau, todas as ofensas possíveis e as não possíveis.

De incompetente a ladrão, coube qualquer outro. Não pouparam quem quer que fosse a ele ligado. Às vezes, busco no cantinho da memória e, parece-me, que só pouparam sua mãe D. Kyiola. Mas só me parece, não tenho certeza!

Na campanha do segundo turno, os ataques, antes dirigidos ao Presidente, foram transferidos para os próprios candidatos entre si, e não faltaram grosserias e ofensas pessoais. Houve, inclusive, a insinuaçao de crime por incentivo ao aborto, que um fez ao outro por ter tido um filho, digo, uma filha, "fora do casamento, hare baba"!

Fiquei na dúvida! Em quem votar?

Decidi pelo candidato que apesar de parecer revolucionário demais para o meu gosto, me dava, ao menos a certeza, de que faria no País uma mudança radical nos costumes politicos. Saí às ruas gritando "Fora Caçador de Marajás",  e "Lula Lá"!

De novo, perdi a eleição!

Mas tinha a certeza de que havia acertado na escolha.

De fato, o "Caçador de Marajás", que tanto ofendera o antigo Presidente da República, mostrou ser-lhe uma cópia fiel e autêntica, apenas com a educação piorada!

Pobre País!

2009 - 15 de julho, a primeira página do Jornal Folha de São Paulo estampa uma foto do Presidente da República num palanque montado em Alagoas, cumprimentando festivamente, com o maior sorriso possível, o "Caçador de Marajás", o mais improvável aliado politico que poderia ter. Mas lá estava, no palanque montado para a campanha da Dilma que, aliás, começou faz tempo.

E o Presidente Lula, aquele que se recusara a votar no Colégio Eleitoral que elegeu Sarney; aquele que se recusou a assinar a Constituição promulgada em 1988, mesmo sendo Deputado Constituinte; o candidato a Presidente, que em 1989 foi acusado de incentivar um crime de aborto; aquele que dizia que o Presidente Collor era uma farsa; que chamava o Presidente Sarney de ladrão; aquele em quem eu votara em 1989, agradeceu emocionado o apoio que tem recebido do Renan, do Collor e do Sarney. Deste, em razão dos trambiques que tem feito no Senado, fez uma defesa digna dos melhores juristas do País.

20 anos depois, aos 57 anos, descubro que a escolha que eu fizera em 1989, foi inútil. Os dois candidatos eram absolutamente iguais, tal como irmãos siameses.

Se tivesse votado no "Caçador de Marajás", pelo menos não teria perdido a eleição.

Pobre País! 



Escrito por Marcão Pacheco às 10h57
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